Portugal com problemas estruturais no consumo de peixe

O pescado é, por diferentes razões, uma das melhores fontes de proteína animal a que temos acesso, em particular quando é proveniente de produção selvagem. Em Portugal, o terceiro maior consumidor de peixe per capita a nível mundial (60,9 kg), este alimento é consumido como um gesto de cultura, seja fresco, salgado, enlatado ou congelado.

Em tese, este seria um hábito louvável, tanto mais que nos portos nacionais descarregam-se anualmente quase duzentas espécies, mas a realidade é outra. E preocupante.

Cerca de dois terços do peixe que é consumido no país é importado. Peixe selvagem de espécies com stocks que nem sempre respeitam o conceito de Rendimento Máximo Sustentável – o que significa que é colocado em risco o potencial reprodutivo da espécie – e peixe de aquacultura que, pela distância geográfica onde é criado e pelos impactos que produz no ambiente (poluição e necessidade de alimentação a partir de recursos selvagens), liberta uma enorme pegada carbónica. Comer uma faneca, apanhada em Portugal, salmão produzida na Escócia ou até uma posta de pescada apanhada na América do Sul são escolhas que, do ponto de vista de poluição planetária, fazem uma diferença tremenda.

Se a estes dois problemas estruturantes acrescentarmos o facto de os portugueses direcionarem insistentemente as suas escolhas para meia dúzia de espécies, facilmente se conclui que o país tem problemas no curto, médio e longo prazo se nada for feito ao nível da mudança de hábitos num país que não vive sem peixe.

E é por isso que entidades oficiais, cientistas e responsáveis das organizações não-governamentais estão de acordo nos seguintes princípios para inverter o cenário atual e, em consequência, criar condições para que a pesca seja sustentável a longo prazo. Primeiro, é fundamental reduzir o consumo per capita de peixe selvagem e de aquacultura e, posteriormente, os consumidores terão de diversificar o consumo de espécies.

É necessário comprar peixe que passou pelas lotas nacionais, criar mecanismos de informação eficientes para os consumidores sobre estado dos stocks nacionais e internacionais e familiarizar-nos com os conceitos de certificação ou de co-gestão de espécies.